A sombra, o sustento e a vida • Fruta de Leite, MG

mulher senhora idosa sentada em banco com bengala

Maria Senhora e Generosa eram as parteiras da região. Doença? Era remédio caseiro, chá, purgante. O velório hoje é um luxo, as urnas são tão mais modernas. Para casar, quem escolhia o marido ou a esposa eram os pais, não tinha essa de namoro não, era conveniência. Rua asfaltada era coisa que ninguém nem conhecia. Nesse tempo, Dona Rosa fazia rosca e biscoito para vender, tinha muita força e saúde.

“Eu devo tudo a Fruta de Leite. Pra mim a vida é aqui.” Rosa Castro de Brito Barbosa tinha 14 anos quando se mudou para o povoado. As duas, Dona Rosa e a cidade de Fruta de Leite, no Vale do Jequitinhonha, cresceram juntas e se pertencem. Ao falar sobre o lugar, suas palavras são de gratidão e orgulho, acompanhadas de um sorriso nada sem graça. Com uma memória certeira, Dona Rosa conta e reconta a história do município, recheada da própria experiência.

Foi no ano de 1942 que Antônio Castro passou por aquele pedaço de terra. Ficou sabendo que ali, se montasse uma venda para o povo da roça, conseguiria uma freguesia grande. Até então só haviam sido construídos na chapada um cemitério e uma igrejinha, acompanhada da imagem de Santa Isabel. Ao lado, uma árvore grande de fruta de leite era responsável por uma boa sombra e pela principal referência dos moradores da região – ‘Lá debaixo do pé de fruta de leite!’. Antônio Castro se animou com a ideia e decidiu sair de Salinas, sua terra natal, para começar uma nova vida no povoado de Fruta de Leite. Ele partiu a cavalo, acompanhado da mulher, Jovina Brito, e da filha Rosa Castro de Brito Barbosa. “Ele foi em Belo Horizonte, comprou umas mercadorias e deixou no entroncamento de Taiobeiras porque não tinha transporte. Aí ele comprou uma carroça e trouxe a mercadoria pra cá. O burrinho chamava Garoto, era o puxador da carroça.”

A família que chegava para montar o primeiro comércio de Fruta de Leite precisou se hospedar na Casa da Santa – uma casa paroquial construída por Custódio Ferreira, o mesmo responsável pela igrejinha e pelo cemitério, para hospedar quem chegasse. A moradia era temporária e logo Antônio Castro construiu a própria casa. De hóspedes, as mulheres da família se tornaram hospedeiras. “Os padres quando vinham ficavam na casa de mamãe. Quando eu já tava aqui casada, eu é que era hospedeira dos padres. Os padres eram membro de minha família. Era não, é!” Isso porque, naquele tempo, missa era de ano em ano. Para chegar ao povoado, o padre precisava ir a cavalo, e a viagem era muito penosa. “Seu Zézinho, o cargueiro, era quem vinha com o padre. Tinha Frei Godarto, Frei Jecutiano, depois Frei Arthur…” Mas se faltavam hóstias, sobravam terços. Todos os dias o povo se reunia na igrejinha para rezar. Como pouca gente sabia ler na região, era a jovem Rosa quem ajudava os mais velhos, acompanhando a reza e lendo os mistérios da Bíblia. Quando chegou a Fruta de Leite, ela já tinha se formado na quarta série e sabia ler e escrever. “Era uma quarta série que valia.”

Da venda do senhor Antônio saia de tudo: de ingredientes para o café da tarde até apetrechos para funerais. “A urna era um caixão de tábua e aqui papai vendia o tecido pra cobrir o caixão”. Podia ser qualquer hora da noite ou do dia, o povo tocava a campainha da venda para comprar os tecidos e fazer o velório. Rosa, por se tratar de um assunto mórbido, tinha medo até de abrir a porta e se escondia para não ter que receber os parentes do defunto. Mas coragem não foi o que lhe faltou quando em 1953, já casada, precisou percorrer cerca de 65 km a cavalo para batizar seu primeiro filho em Salinas. E sem desperdiçar o tempo e o esforço da viagem, ela voltou para casa com a resolução daquilo que há tempos desejava: a criação da Escola Municipal de Fruta de Leite. Denominada inicialmente de Antônio Castro Neto, em homenagem ao pai, Rosa fundou a primeira escola do já então município, onde também foi professora de muitas crianças e jovens da região.

No mesmo ano, seu pai, Antônio Castro, comprou uma fazenda em Vacaria e mudou-se pra lá. Quem assumiu o comércio foi Dé Barbosa, marido de Dona Rosa. “Ele [papai] passou a lojinha pra Dé, pra nós né. Aí Dé montou a loja e foi progredindo, Deus ajudou.” Foi nesse tempo que ele trouxe o primeiro rádio para a cidade. “Isso causou uma admiração. O povo da roça vinha aqui só pra assistir o rádio, e falava com Dé: ‘como já se viu um caixote falar igual gente?’, ‘Torna a colocar aí seu Dé?’.”

E de inovações, Dé Barbosa foi entendedor. “O povo admirou a primeira geladeira também, que era movida à querosene. Depois Dé comprou um carro, era um jipe. Levava um povo em Salinas e trazia de volta. Era o que tinha de socorro aqui naquela época. Depois ele também colocou um motor pra fornecer energia da luz, mas era só aqui em casa.” E as novidades não pararam mais de chegar. Os moradores foram se acostumando, entendendo. Quando o prefeito comprou a primeira televisão, ninguém nem estranhou tanto.

A cidade mudou muito, e Rosa Castro Brito Barbosa também. Aos 86 anos, 72 de Fruta de Leite, Dona Rosa afirma: “velhice é uma felicidade. Eu tô feliz porque eu já vivi esse tempo todo amiga de todo mundo daqui, da região toda. Qualquer um pode pedir informação de quem sou eu. Então eu fico feliz com isso. A velhice pra mim tá sendo uma glória. Tô satisfeita.” E quando os filhos falam sobre levá-la para morar na cidade grande, ela foge do assunto. “Quem ficou dos 14 aos 86, fica mais o restinho. Eu to pedindo a Deus que seja ao menos mais uns quatro anos ou cinco, né.”

texto: Carolina Resende / foto: Domenico Pugliese

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