Palavra de pescador • Pedras de Maria da Cruz, MG

Pescador contando história

Dizem por aí que o rio já não enche a mesa do pescador. Que a água está suja, verde, que os peixes não querem nadar no São Francisco, nem fisgar a isca que fica na ponta do anzol. Mesmo quem sai de casa bem cedinho não consegue chegar com o barco cheio. Antes, era só uma tendência, observada por aqueles que vivem em simbiose com o rio. A tendência tornou-se realidade em pouco tempo.

Todo mundo dá pitaco e muita gente faz alarde, mas quem sabe mesmo dos prazeres e as dores de viver ao lado de um São Francisco degradado são os pescadores. Hilton Honório é um deles. Com 50 anos de vida na beira do rio, Hilton diz que nunca teve motivos para reclamar da pesca porque de dois em dois anos tinha enchente. Apesar dos problemas que as enchentes trazem, são elas que alimentam o Velho Chico pois quando ela chega a água vai para as lagoas, onde estão armazenados os peixes, e os leva para o rio. Agora, com a seca e a falta de enchentes, a situação é crítica. “Depois que acabaram as enchentes acabou o peixe”, diz.

A esse problema se somam outros, como a poluição provocada pelas indústrias e pela rede de esgoto que provocam a mortandade de peixe de maneira esporádica. A adesão ao uso da rabeta (motor de barco) também atrapalhou a vida no rio, pois ajudou os pescadores a irem mais longe e conseguir pegar mais peixes.

Todos esses dados levam a crer que o número de pescadores diminuiu. Mas essa óbvia conclusão não é acertada. Segundo Hilton, há mais pescadores no município. “Existem 300 associados à colônia de pescadores de Pedras de Maria da Cruz. É um número alto. Antes o pescador não se interessava muito pela pesca, porque o ganho era pouco. Mas com o seguro desemprego os pescadores se interessaram mais. Isso garante que durante os quatro meses da Piracema a gente ganhe seguro-desemprego”, explica. Ele mesmo admite que muitos dos novos associados sabem pescar “mais ou menos”. Ri da piada, mas não desvia o olhar.

A solução para quem não trabalha no rio é viver no “seco”. Não por menos, a cidade tem um grande número de pessoas empregadas pela prefeitura ou no setor de serviços. Antigamente, quando essas alternativas eram escassas, as pessoas buscavam um emprego na terra. Os problemas ambientais, porém, não atrapalharam só a pesca. “A terra enfraqueceu. Tanto as ilhas quando os lotes na beira do rio. Então o pessoal vai abandonando”, conta. Muitos venderam a terra antes de a situação piorar, ou mesmo por pressão dos grandes fazendeiros.

O pai de Hilton foi uma das vítimas. “Meu pai tinha 5 hectares de terra documentado e o fazendeiro queria tirar dele de qualquer jeito. Acionamos a justiça e ganhamos. O próprio juiz falou para ele para deixar meu pai em paz, porque o fazendeiro já tinha milhares de hectares, Mas aí ele mandou jagunço matar meu pai. Deus ajudou, porque sempre que ele mandou gente lá a fazenda tava vazia. Mas meu pai ficou com medo e vendeu a terra para outra pessoa. Essa pessoa era comprador do fazendeiro”, rememora. A luta do mais fraco com o mais forte no território do Velho Chico ainda é desleal.

Por Juliana Afonso / Foto: Inácio Neves

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