Andando só, em três

Poroca. Maroca. Indaia.

Quanto pesa o viver? Sonhos, dores, memórias… A conta não fecha. Mas aqui o resultado é fracionado por três, pra ser mais fácil um pouquinho. Se não fosse, imagina o aperreio que seria? As irmãs não escondem a singularidade, cada uma sabe ser sendo si mesma. Sempre juntas, na primeira pessoa do plural, parecem inteiras. Bem afinadas – na música, no xêro, no riso, nas brincadeiras (de sobra) – falam de um jeito bonito sobre o mundo, que conhecem de ouvido, de tato e de sonhar.

Quem primeiro veio foi Poroca, em 1944, na terra de Solânea, Paraíba. No ano seguinte, Maroca chegou em Capim Açu, Paraíba. E foi com o prazo de seis anos que chegou Indaiá, em Afonso Bezerra, Rio Grande do Norte. O motivo foi que o pai e a mãe eram agricultores e viviam nas andanças. “Ele era desses que quando ficava sem um canto, ele não podia ver chuva que logo ia plantar. Mas só que quando dava doidice na cabeça dele ele vendia o roçado a gente ia embora proutro canto. Quando chegava noutro canto era a mesma coisa, aí nunca a gente se aprumou. Aí foi tempo que nós viemos pra cá. Aí mãe morreu, aí pronto, a gente não saiu mais nunca daqui” (Maroca). Campina Grande, na Paraíba, foi e é a cidade das lembranças que se quer e não se quer lembrar, desde 1962.

Do pai elas herdaram o dom. Ele era tocador de realejo de boca e, com ele, aprenderam a cantar o coco de embolada. Só careciam do instrumento que naturalmente tinham, a boa voz. Mas com o passar do tempo completaram a arte com o ganzá. “Os embolador de coco cantava coco no meio da rua com eles [os ganzás] aí a gente pegou pra saber como era. Aí, vão manda fazer um ganzá também pra ficar cantando com o ganzá também” (Maroca).

Com a morte do pai, o que receberam da mãe foi a exigência do sacrifício. A pobreza era grande, não havia condição de viver, era pedir pra viver. Sobreviver do pedir. E pedir com o cantar. As irmãs começaram, ainda crianças, a cantar detrás da Catedral, mas era em frente à Livraria Pedrosa, no centro de Campina Grande, que os passantes se paravam, atentados pelo coco.

A vida na rua não dava sossego – o que para elas, hoje, é sinônimo de felicidade. Três meninas, mulheres, cegas. O que tinha de ser difícil, era. A hora de comer e o lugar de dormir não se tinha garantia. E do que foi, elas emendam. “Agora, se eu tivesse desde criança aprendido a estudar, não tinha acontecido esse negócio de pedir nenhuma vez” (Maroca). “A gente ia estudar no instituto do deficiente mas mãe não deixou a gente ir” (Indaiá). “Ela botou até sacola na cabeça da gente – Que que vocês vão vê lá? Que que vocês vão vê lá? Vocês vão ser judiadas, que eles vão judiar. Quando vocês tiver doente, por quem vocês vão chamar?” (Poroca). Negado o direito de estudar, sobraram as calçadas.

E fez que na mesma esquina que o ganzá tocava, o rumo mudou. Sobre as três mulheres, um filme. A pessoa é para o que nasce dá o título e carrega explicação: “É porque cada um tem que ter uma coisa. Se a pessoa nasceu pra trabalhar é pra trabalhar, se nasceu pra preguiçoso é pra preguiçoso. Todo mundo tem que nascer pra uma coisa mesmo. Como a gente não sabe fazer nada a gente nasceu pra cantar no meio da rua, nos canto” (Maroca). Fazer nada?

O filme que começou em 1997 foi terminar em 2005. A partir daí, isso de pedir esmola já não era mais. A cantoria da rua foi para os palcos de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Fortaleza, Belo Horizonte… “A gente ganhava dinheiro assim, ganhava cachê das apresentação que fazia. Quando era assim nos canto, o povo convidava prum show nas estreia do filme, aí a gente ganhava” (Maroca). Não era dinheiro de todo mês, não foi dinheiro pra fazer o sustento, mas ajudou a mudar o caminho das coisas.

Hoje, Poroca, Maroca e Indaiá vivem junto da família de Valquiria. A porta da casa tá aberta e elas dão boas-vindas a uma novidade. Se for lá, a prosa corre o risco de durar um dia inteiro e o coração é garantia de sair mais cheio. Regina, Maria e Francisca não se esquivam ao falar da dor, que só elas sabem o tamanho que foi e é. Mas também, não fazem do sofrimento o protagonista, nem da vida nem das lembranças. Quando pergunto se desse caminho fica mais sofrimento ou mais alegria, elas se concordam em dizer, sorrindo, “Mais alegria!”. “Mesmo sendo cansada mas é mais alegria” (Maroca).

* É por Ceguinhas de Campina Grande que ficaram famosas. O título surgiu com o filme e elas dizem não se incomodar. Pelo “ceguinhas” não tem problema não, é o costume de chamar mesmo. Pelo “Campina Grande”, tudo bem, é bem dizer que são daqui mesmo já que chegaram faz tempo.

Poroca – Regina Barbora, 1944, Solânea/PB
Maroca – Maria das Neves Barbosa, 1945, Capim Açu/PB
Indáia – Francisca da Conceição Barbosa, 1951, Afonso Bezerra/RN

texto: Carolina Resende / foto: Marina Novais

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