Desafio que virou paixão • Belo Horizonte, MG

homem segurando câmera escura feita a mão

Essa história começa com uma tentativa de assalto, o que não é em si uma coisa boa, mas adianto que o final é feliz. É a história de um marceneiro-aventureiro, que pelo acaso se encontra com a fotografia.

Seu Zauss, como se apresenta hoje, é filho de marceneiro e com 15 anos se tornou aprendiz do pai, ainda no interior de Minas Gerias. Não tem muito gosto pela escola, o que não que dizer que não se importe com educação e conhecimento. É um homem firme e apaixonado, fala muito de suas leituras e como especificamente as exposições que foi tem consequência no seu trabalho. Durante a nossa conversa se lembra de uma exposição de Rodin, a qual viajou quilômetros para ver e que a partir daquele momento decidiu começar a talhar a madeira.

Muito dono de si, desde cedo, Zauss foi para o Rio de Janeiro onde viveu por 23 anos, mas a cidade grande cansa e ele decidiu voltar para Minas. O trabalho fez com que ficasse por Belo Horizonte. O ofício em casa agradava Zauss, mas ter que atravessar a cidade com o transito cada vez mais caótico de BH lhe fazia mal.

É nesse ponto que a fotografia entra na história.

Em um dia comum Zauss recebe uma ligação para trocar duas portas, era o fotógrafo Elmo Alves, chegando lá ele se informa que assaltantes conseguiram arrombar a porta do hall do andar do prédio, mas por sorte não entraram no apartamento. Como bons brasileiros, e mais, mineiros, não abrem mão de um dedo de prosa, e durante o serviço vendo que Zauss era um aficionado por arte e desafios, Elmo perguntou se ele não faria uma câmera fotográfica. Zauss respondeu que nunca havia feito uma, mas iria tentar. Ele nos conta que o encantamento foi imediato e quando viu os desenhos da futura câmara, o projeto no papel, ficou arrepiado. Zauss conta que nesse fim de semana ele não dormiu, pesquisava, fazia testes, tentava construir a câmera lambe-lambe. Como fazer o fole? Qual a melhor técnica para a revelação? Tantas perguntas e curiosidade.

Assim com ajuda de amigos a Câmara de fole grande formato 4:5 foi construída e exposta de BH, e a partir daí começaram as encomendas, mas Zauss não queria construir uma relação de prazos com a fotografia, aquela era sua paixão, não deveria estar ligada a obrigações.
Esse foi um mergulho iniciado há quatro anos e de onde Zauss parece não querer sair tão cedo. Conhecedor dos processos, ele fala com segurança tanto do processo de fotografia artesanal e experimental e por outro lado do funcionamento das câmeras digitais mais modernas, possui diversas câmaras escuras e ao mesmo tempo tem sua própria impressora.

Nosso artista fala de Fotógrafos Marginais, seriam esses fotógrafos que querem seu trabalho na rua, que se importam em entender como funciona essa mágica do escrever com a luz. Fotógrafos esses que viajam o país com suas máquinas, ocupando espaços paralelos em eventos de fotografia. Zauss conta como se impressiona todas as vezes que fotógrafos com câmeras super caras no pescoço se surpreendem ao ver a imagem invertida dentro das caixas e que como ele explica sempre com o mesmo prazer de ver essa descoberta para cada fotógrafo. Ele se orgulha de sua Belina e dos amigos fotógrafos com quem aprende e para quem ensina, afirma que o encontro com os amigos são “minha escola”, mas o maior orgulho é ser um representante da história da fotografia, é lembrar a quem encontra no caminho que antes de um click existiu e existe uma longa caminhada.

Por Daniele Rodrigues, jornalista e fotógrafa (site) / Foto: Daniele Rodrigues

 

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