Quilombo. União e força • Malhada, BA

homem e mulher sorrindo

O cabelo crespo, a pele negra. O sorriso largo. Joanita tem orgulho de suas raízes e gratidão pelo seu destino. Foi ele quem a levou ao Quilombo Tomé Nunes, no município de Malhada, cidade baiana, quase divisa com Minas Gerais. Viver ali não é pra qualquer um. É preciso ser forte, conviver com as agruras da terra seca e saber aproveitar os dias de bonança, quando a chuva lava o chão e faz a vida florescer.

Cada um chegou ali por um motivo diferente. Joanita Dias de Brito, 53 anos, nasceu em Pau Preto, “na fartura”, como ela mesma diz. “Quando a gente tava lá, naquele bem bom, chegou o encarregado do fazendeiro e falou que o pessoal tinha que sair. Acabou que eles vieram e colocaram criação na roça e em questão de noite o gado devorou tudo. Foi preciso sair nas carreiras, não deu tempo de tirar nada. Ficou tudo pra trás.” Eles moravam lá por causa da terra fértil, mas já conheciam pessoas que moravam no quilombo. Seu avô era um deles. Ele contava que seu pai era escravo fugido e ficaram em um local com nome Barreiro, para depois ir para a comunidade, que era terra de um grande fazendeiro.

Hoje eles lutam pelos seus direitos. “Somos reconhecidos como quilombo pela Fundação Palmares desde 2004, mas ainda não temos a titulação da terra.” Já foram visitados por antropóloga, geógrafa, historiadora. Já foi realizado o cadastramento de todas as famílias. Já entregaram o relatório final. “Agora é com o Incra”, suspira Joanita. A comunidade espera ansiosa por um parecer que lhes dê, depois de tantos anos, depois de tanta luta, o direito à terra que tornaram fértil. E espera com sorrisos.

A união dos que formam o Quilombo Tomé Nunes inspira. Juntos, eles construíram casas de tijolos e espaços de uso coletivo, como o centro comunitário, onde mulheres e homens discutem políticas e ações, e o ponto de cultura, onde jovens e adultos dançam, ao som dos tambores africanos, que tocam fundo nas raízes daquela gente. Juntos, eles propõem eventos, cozinham, conversam, brincam, sorriem, discutem – claro – e transformam aquele pedaço de terra em uma comunidade auto-organizada, como poucas. Tudo isso apesar da situação – ou talvez por causa dela.

Tem lavoura? “A gente produz de tudo um pouco. Farinha, mandioca, milho, feijão, abóbora, batata, banana”. Tem arte? “Tem gente aqui que faz crochê. Também tem costureira, artesanato de barro e o nosso artista, o Joazir, que é pintor”. Tem dança? “Tem um grupo dança afro, além do Reizado e do Boi de Girá”. Tomé Nunes é um quilombo fértil, em arte e em produção.

Mas a natureza já lhes foi mais acolhedora. “Eu conheci esse nosso rio São Francisco chegando na beira aqui. Era tão fundo onde passava o vapor que a água era escura. Hoje o nosso rio está pedindo socorro da seca. Onde era fundo hoje é terra. Nós temos uma coroa aqui no meio do rio que só dava pra ir de barco, mas hoje os menos tão passando de moto. Olha, o nosso rio acabou…” conta com pesar Leobino Dias dos Santos Filho, 41 anos. A água escassa diminuiu até mesmo o aparecimento dos caboclos. As lendas existem na memória. “O cumpadre d’água eu vi. Ele é um negro da cabeça pelada. Eu ia descendo do barranco e quando ele me viu, mergulhou e sumiu”, conta Joanita, que revive também as histórias dos pais e dos avós, do compadre d’água e do pai do mato.

As tradições, passadas de geração a geração, se manifestam na cultura e na lavoura, e até mesmo na união entre uma e outra. Joanita se despediu com uma música que aprendeu com a mãe, cantada durante as tardes que ficavam sob o sol moendo cana, lavando roupa. A canção não diz do povo africano, mas do povo indígena que, como eles, ainda hoje luta pelos seus direitos e encontram força na união da sua comunidade.

Sou índia
Só pela cor do meu cabelo
Sou forte
Vencerei ao mundo inteiro
Porém se alguém queira duvidar
A minha flecha eu terei que provar

Por Juliana Afonso / Foto: André Fossati

 

Veja também

Comente!