Mãos que criam • Pirapora, MG

mulher fazendo artesanato

“Falam que carranca é pra espantar dos caboclos d’água. Quando o barco tem uma carranca eles pode navegar sossegado porque ela protege. Mas quando o barco não tem, os caboclo afunda ele”. As palavras de Luíza Carneiro Soares resumem bem a ideia que se tem sobre os caboclos d’água em toda a região. Para se livrar da moléstia, só com uma carranca na ponta do barco, para guiar o capitão até o destino sem maiores complicações. E das mãos de Luíza saem alguns dos exemplares de carrancas mais bonitos de toda região.

Ela é uma das fundadoras da Associação do Carranqueiros de Pirapora, que existe há 38 anos. Tudo começou quando o seu irmão conheceu Dedico Boaventura, um senhor que comprava carrancas na Bahia. Certa vez ele mostrou uma peça para o irmão de Luíza e perguntou se ele conseguia fazer igual. O resultado foi surpreendente… o homem ficou encantado!

Foi quando Luíza e sua família saíram de São Romão, onde moravam, e foram para Pirapora, ganhar a vida com o artesanato de carrancas de madeira, de todos os tamanhos e gostos. Dedico encontrou casas para que todos e, com pouco mais de ano, eles já tinham comprado tudo que precisavam. “Hoje tudo isso aqui é da família”, abre os braços orgulhosa, mostrando o galpão em que trabalha.

As carrancas que eles produzem são mesmo especiais. “As da Bahia não têm as presas nem as orelhas, ne? A nossa tem. Foram criadas pelo meu irmão, que ensinou nós a fazer tudo parecido”, conta ,enquanto manuseia um pedaço de madeira que logo vai tomando a forma de um cavalo-cachorro de boca aberta e olhos arregalados. Assustador, se não fosse uma autêntica obra de arte do sertão mineiro.

Todos aprenderam a fazer olhando. Pega a madeira, talha, lixa e enverniza. E assim cada um vai ganhando seu dinheiro. Se ela gosta do que faz? “Eu gosto é muito. Gosto mais do que ficar em casa. Até nos domingos, eu volto da igreja, arrumo cabelo e venho pra cá trabalhar”, ri.

O trabalho é importante para ela, que sempre foi uma mulher guerreira. Luíza se casou aos 12 anos e ganhou o primeiro filho aos 13. A partir daí foi um menino a cada ano. Com o tempo, seu marido foi embora. Ela, então, criou os seis filhos sozinha. Luíza chegou a ficar com outra pessoa, “mas ele ficava enchendo a paciência e eu mesma disse que era pra ele ir embora. Pra ficar com homem assim é melhor ficar sozinha, ne?”, pergunta, rindo. Educou os seus filhos na base da cumplicidade: todos brincavam muito e também ajudavam sempre que preciso, tanto nas tarefas domésticas quanto na educação dos irmãos.

Hoje, estão com “a vida feita.” Um é professor, o outro é cabeleireiro, dois trabalham na Associação e outros foram para Brasília. Luíza já foi visitar seus meninos em na capital, mas voltou ligeiro. “Ce sai de casa tranquila, aí é aqueles ônibus apertados, aquele barulho, aquele monte de gente… volta com a cabeça até tiritando”. Em Pirapora é mais tranquilo. Com a bicicleta se chega a todos os cantos. Pouco barulho, pouca confusão, nenhum acidente. Um “paraíso”, como costuma dizer.

Por Juliana Afonso / Foto: Juliana Afonso

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